PENSO, MAS SE EU SOU, NÃO PENSO. APENAS SOU!
A proposta do título talvez
seja provocativa. Talvez, não! Um
emaranhado de incertezas, dialogando com certezas, mas que de certezas não
possui nada. Escrever por si só é uma tarefa árdua, ainda mais quando nos
dirigimos a um universo, à parte, que se propõe a responder a todas as indagações
do mundo, de todos, sobre todos e para todos. Que ignora
a complexidade humana, aliás, até mesmo se utiliza da falsa modéstia em
reafirmar tal complexidade. E nesse universo de indagações é que eu também
começo a questionar: o que traz legitimidade ao pensamento de alguém? Basta ser
pensante para poder pensar? Ou o pensamento só se (des)legitima por ser quem
sou?
Nesse contexto, duvidar
da verdade das coisas é um exercício caro. Descartes quem o diga, quando
começou a indagar sobre as verdades já existentes em sua época. Aliás,
questionar-se sobre a própria existência, ao ponto de não duvidar que existe,
pelo fato de pensar e saber que pensa me parece desafiador. Mas, não é este o objeto
central do meu questionamento, embora pudesse ser.
As inquietações surgem no
momento em que parece estarmos em uma reza cotidiana com terços nas mãos
rezando para as ‘Santíssimas Trindades’ (sim, no plural mesmo, porque cada
espaço tem seus santos). Ousar discordar, nesse caso, é tão constrangedor e
temeroso como se estivéssemos em uma missa de domingo, como se fossemos os
maiores pecadores, simplesmente por discordar.
A situação, todavia, se
agrava quando a disputa não é pelo o que discorda, mas sim, por quem discorda. Ora, se
todos os raciocínios são um encadeamento de premissas, por qual razão então discordamos de
imediato da fonte e não das ideias? A origem das fontes deslegitima de imediato
todo o processo de construção de ideias? Me parece uma tara excessiva em tornar
as premissas como verdadeiras a qualquer custo, inclusive, o custo de eliminar alguém
do debate clamando por inclusão, um tanto quanto contraditório. “Ser convencido de uma ideia é um processo que envolve
muito mais o apelo emocional do que a capacidade de articular racionalmente um
conjunto de ideias” (Razzo,
2017).
Tomando como base essa
perspectiva da emoção como parte do convencimento, não raro encontramos tais
expressões: “Branco não pode falar sobre racismo”; “Homem não pode falar sobre
aborto”; “Homem não pode falar sobre violência contra a mulher”. São essas ‘emoções’
em um discurso que reverbera o que chamam de Falácia Genética, que
consiste basicamente em deslegitimar todo um encadeamento de ideias, simplesmente
pelo fato de sua origem, isto é, de onde vem, ou melhor ainda, quem as emana. Me
parece que o universo que deveria abarcar o maior número de ideias a fim de que os horizontes sejam enxergados, se rendeu a deslegitimar pelo simples fato da origem. Talvez, estejamos sofrendo de algum problema de visão, pelo qual o óculos da sensatez precisa, com urgência, ser colocados em nossas orelhas. Não apenas como suporte, mas também como capacidade de ouvir quem discorda.
Por fim, convém lembrar que “[....]
os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o
ler, raro o refletir. O saber não está
na ciência alheia, que se absorve, mas principalmente, nas
idéias próprias, que se geram dos
conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito
que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas
transformador reflexivo de aquisições digeridas." [Rui Barbosa - Oração aos Moços]
- IMS
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