Papagaios intelectuais ou autônomos ignorantes?
Lendo o texto postado neste blog,
autoria de IMS, percebi algumas coisas... Na verdade, perceber seria um
descaso, já que pessoalmente [IMS e eu] temos muitos debates acerca de diversas
questões um tanto quanto aleatórias. Mais recentemente, me cerquei por um
conflito que pode ter surgido na academia e que dialoga bastante com a postagem
supracitada.
A sociedade nos prega que somos
indivíduos autônomos, independentes, ou melhor dizendo, individualistas. Como
pensava Sartre, a nossa única condenação é ser livre. Pego-me analisando
pensamentos como esses e percebo a hipocrisia disso. Calma lá, leitor, não vá
me apedrejar antes que eu possa construir meu caso, isto é, minha tentativa de
expor uma argumentação minimamente coerente.
Vivemos em uma sociedade a qual ter
conhecimento corresponde a ter poder. O que deixamos de pensar é que adquirimos
compreensões já cristalizadas e portanto, temos poucas brechas para realmente
individualizar nossa consciência. Na hipótese que conheço sobre um autor,
estudo suas obras, tenho o mínimo cognitivo que me permita entender seu
contexto e as consequências do que ele dispôs, torno-me automaticamente um
expert no assunto. A crítica que faço é que não somos especialistas em nada;
somos apenas reprodutores – papagaios – que insistem em repetir citações
consagradas achando que assim, será atribuída uma falsa superioridade quando
comparada aos indivíduos que não possuíram o privilégio de ler o mesmo que
você.
Conversando com pessoas que são
detentoras de excelente memória e, portanto, ótimas para parafrasear autores
consagrados, é comum ouvir palavras-chaves como “marxismo”, “moderno”,
“pós-moderno”, “neoliberalismo”, “esquerda”, “direita”, “escola crítica”, “proletariado”,
“burguesia”, e muitos outros termos que vários pensadores importantes
discursaram ou discursam sobre. O problema jaz no extremismo pregado por
algumas delas (pensam ter o intelecto acima da média e detentores da verdade),
que consideram alterações ou discordâncias não cabíveis a serem feitas em obras
renomadas, isto porque significaria uma não compreensão do que escreveu o autor
e um desrespeito a sua análise sociológica.
Pois bem, se vivemos em uma sociedade a
qual a liberdade nos é permitida, por que estamos obrigados a permanecer no
passado? Enquanto escrevo esta reflexão, ouço uma composição ainda bastante
atual de Belchior, na interpretação da incrível Elis Regina, e a música sempre
me intriga, em especial estes trechos: “[...] Minha dor é perceber que apesar
de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos [...]” e “[...] É
você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem [...]”.
Será que não estamos reproduzindo
séculos e séculos de uma mesmice com nova roupagem? Será que ao afirmar que
alguém desconhece autor X por discordar de partes do que é dito, não estamos
coibindo uma nova interpretação que poderia contribuir mais, pelo simples fato
de vivermos um novo tempo e portanto nova realidade social?
Todas essas ideias foram trazidas em uma
tentativa de levantar a questão: são sábios aqueles que estudam o que os
dominantes já disseram e ignorantes aqueles que pensam o novo? Se sim, a
individualidade, a liberdade, a possibilidade de inovar realmente existe? E
caso você respondeu que não há tal coisa como ser liberto, adiciono mais um
pensamento: o que estamos fazendo aqui e para quê ou quem vivemos?
- NMF.
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