Crise Pós-Moderna: A decomposição de uma Filosofia Fracassada


Impossível escrever sobre pós-modernidade sem mencionar Jean-François Lyotard, filósofo francês que popularizou tal signo, e sua clássica definição de pós-modernidade como momento histórico que nasce com a incredulidade dos sujeitos perante as metanarrativas (LYOTARD, 2009). Em outras palavras, após as crises cíclicas do capitalismo e sua estruturação de desigualdades, a tragédia soviética que ficou conhecida como socialismo real, e o desvelamento das limitações da razão iluminista, a humanidade teria se desiludido de perspectivas emancipatórias.

Logo, com base em tal diagnóstico, restaria apenas o caminho de aceitar a realidade como ela é e dançar a beira do abismo como o Übermensch nietzschiano (NIETZSCHE, 2015). Afinal, se os sonhos de fundar um mundo melhor não mais existem, qual a razão de ir contra o que está posto? Nesse sentido, a atitude mais corajosa seria aceitar a realidade. Tal postura, após ser imensamente popularizada filosoficamente, nas últimas décadas, vem encontrando seu fim por servir como legitimação para absolutamente qualquer conduta.  Assim, parafraseando Dani Rodrik quando escreveu sobre o consenso de Washington, a questão não seria saber se a pós-modernidade ainda vive, mas saber o que deverá substituí-la (RODRIK, 2006).

É notório que a postura pós-moderna está em crise academicamente, todavia seus reflexos na sociedade ainda são enormes. É comum observar pessoas que nem sequer sabem da existência de tal significante enunciar discursos que vão no sentido de: “O que importa é eu viver feliz comigo mesmo”, “A minha moral é íntima e intocável”, “Não siga padrões, o que vale é o que você pensa” e talvez a mais simbólica “nada é errado se te faz feliz”. O leitor atento já deve ter percebido a relativização que esse discurso enuncia. Não trata-se aqui de discutir questões de âmbito puramente íntimo das pessoas, mas sim de perceber as consequências que tais discursos de relativização trazem para a sociedade. Ou seja, a apropriação do discurso pós-moderno, principalmente por adolescentes classe média alta que se dizem progressistas, perfaz discursos incoerentes perante a realidade fática. Esse processo acaba por legitimar discursos conservadores os quais atacam enunciações caricatas daqueles que se dizem progressistas, porém utilizam-se de argumentos incrivelmente rasos e infundamentados.

As perspectivas pós-modernas tornaram-se até mesmo “bandeiras” políticas, muitas vezes ligadas a pautas identitárias, infelizmente, intimamente ligadas a correntes da New Left. Nesse sentido, o discurso pós moderno pode ser instrumentalizado para defender pautas progressistas e, ao meu ver totalmente defensáveis, entretanto a problemática está em que esse modo de instrumentalização invoca a relativização do debate político. Assim, de modo caricato para facilitar o entendimento, ao uma pessoa compreendida como progressista enunciar que “nenhuma forma de amor é errada se me faz feliz” em uma alusão aos direitos LGTBs por exemplo, tal enunciação a primeira vista engajada abre espaço para uma enunciação conservadora de, por exemplo, “nenhum discurso dito xenofóbico e preconceituosos é errado se me faz sorrir na roda de amigos”. A estrutura discursiva é a mesma, afastando a clara diferença em seus conteúdos, e de modo puramente lógico ambas possuem a mesma coerência interna.

Por fim, se não há mais um “certo”, um “caminho a qual seguir”, se a subjetividade de cada um é “a medida de todas as coisas” para seu foro íntimo e todas as opiniões podem ser enunciadas de modo legítimo, há algum crivo possível para dizer que um discurso eugenista e/ou fascista é moralmente errado? De acordo com a perspectiva pós-moderna a resposta é um sonoro não, afinal, não há mais conceitos rígidos aos quais se apegarem. Talvez isso seja um dos fatores que ajudem a explicar a ascensão política de figuras ultraconservadoras e negacionistas científicos nos países ocidentais, tais como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Marine Le Pen.

Referências Utilizadas:

RODRICK, Dani. Goodbye Washington Consensus, Hello Washington Confusion? 2006.
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. 2009.
NIETZSCHE, Friedrich, Assim Falou Zaratustra. 2015.

AR

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